A Voz da Tânia

O incômodo que virou propósito: por que o Único existe

Tem uma pergunta que me acompanhou por anos antes de virar produto. Não era sobre fórmula. Era sobre por que ninguém tinha ainda feito aquilo de um jeito que funcionasse de verdade.

Antes de tudo, fui bailarina profissional no Ballet Stagium. Meu corpo era minha ferramenta de trabalho — e o meu campo de batalha também. Aos vinte anos, precisei parar por conta de uma anorexia nervosa. Aquela experiência me reconfigurou por dentro. A relação com o corpo deixou de ser de controle e passou a ser, com o tempo, de cuidado.

Depois disso, fiz História. Depois, Fisioterapia. Escolhi a oncologia com intenção — sempre me fascinou pela profundidade, pelo olhar que a área exige sobre a vida. Fiz mestrado na USP, me especializei em linfoterapia, exercício em oncologia, cuidados paliativos. Passei anos ao lado de pessoas atravessando os momentos mais difíceis que existem.

E então o destino, como costuma fazer, cruzou minha história com a minha escolha profissional de um jeito muito direto: enfrentei o câncer de mama três vezes — em 2004, 2007 e 2020. Cada diagnóstico foi uma virada diferente. E cada vez, a pergunta voltava: o que eu posso colocar no meu corpo com consciência?

O problema que ninguém resolvia

Nesse percurso todo, havia um incômodo específico que parecia pequeno, mas não era. O uso de antitranspirantes convencionais nunca fez sentido para mim — bloquear a transpiração com sais de alumínio, mascarar o corpo com fragrâncias sintéticas. E ao mesmo tempo, os desodorantes naturais que eu encontrava no mercado brasileiro simplesmente não funcionavam. Manchavam roupa. Duravam duas horas. Irritavam a pele.

Em 2016, fui a Nova York com minha filha Luísa. Numa farmácia de bairro, encontrei uma prateleira inteira dedicada a desodorantes naturais — produtos em vidro, com INCI declarado, sem alumínio, sem parabenos, sem fragrâncias sintéticas. Comprei vários. Voltei para o Brasil com a certeza de que aquilo era possível. E com a pergunta: por que não existe isso aqui?

Em 2017 começamos os testes. Foram meses de fórmulas, ajustes, falhas, recomeços. Em 2018, o Único foi lançado — uma empresa familiar criada por mim e pela Luísa.

O que a ciência diz — e o que ainda não se sabe

A escolha de não usar alumínio na fórmula não é só de posicionamento. Há uma discussão científica real em andamento — e é importante entendê-la sem exageros nem omissões.

A hipótese de que sais de alumínio, por atividade estrogênica leve e genotoxicidade potencial, poderiam ter algum papel na carcinogênese mamária foi levantada em 2005.1 É uma hipótese biologicamente plausível — mas causalidade em humanos não está estabelecida. O que estudos mais recentes indicam é que o alumínio, em modelos experimentais, induziu instabilidade genômica em células epiteliais mamárias.2 A revisão sistemática mais recente sobre o tema, publicada em 2023, analisou seis estudos populacionais sobre uso de antitranspirante e incidência de câncer de mama — os resultados foram inconsistentes.3 Uma meta-análise de 2024 com sete estudos caso-controle também não encontrou associação estatisticamente significativa.4

Isso não significa que o alumínio é inofensivo. Significa que a ciência ainda não tem resposta definitiva — e que diante dessa incerteza, optar por uma formulação sem esse ingrediente, quando existe alternativa que funciona, é simplesmente a escolha mais prudente.

Sobre parabenos, o cenário tem mais acúmulo de evidência. Uma revisão de 2021 documentou os mecanismos pelos quais disruptores endócrinos — incluindo parabenos — podem influenciar o comportamento de células de câncer de mama.5 Esses compostos já foram encontrados intactos em tecido tumoral mamário humano.6

Sobre o princípio de precaução: A Comissão Europeia formalizou em 2000 o princípio de que, diante de evidências plausíveis de risco, mesmo sem certeza causal, medidas preventivas são justificadas quando existem alternativas seguras disponíveis. É exatamente o caso aqui.

O que é o Único — de verdade

O Único não bloqueia a transpiração. Não tenta eliminar o suor — o suor tem função: regula a temperatura do corpo, faz parte da fisiologia normal. O que o Único faz é agir sobre o odor: por ação antimicrobiana dos óleos essenciais e por modulação de pH via bicarbonato de sódio, o microambiente axilar se torna menos favorável para as bactérias que produzem o cheiro.

A fórmula tem seis ingredientes. Não é minimalismo por estética. É minimalismo porque cada ingrediente extra é uma variável a mais — um potencial alérgeno, mais uma substância em contato com pele que em muitos casos já está sensibilizada. Os seis: manteiga de karité, amido de milho, bicarbonato de sódio, cera de carnaúba, óleo essencial (lavanda, alecrim, gerânio ou lemongrass) e base vegetal. Nada de parabenos. Nada de alumínio. Nada de triclosan. Registro ANVISA.

Orientação clínica — radioterapia axilar: Durante a radioterapia na região axilar, a orientação unânime das principais referências clínicas é não usar desodorante algum — natural ou convencional. A retomada é definida exclusivamente pela equipe médica. Fontes: MASCC 2023[7] · INCA · A.C. Camargo · Oncoguia.

Mais do que um produto

O Único nasceu com um propósito que vai além de uma fórmula. Queremos contribuir para a mudança de hábitos — um consumo mais simples, natural e responsável, com uso consciente de matérias-primas e menos desperdício em cada etapa.

Sustentabilidade, para nós, não é tendência. É ética. É a recusa ao atalho de usar ingredientes mais baratos e mais duvidosos porque o mercado aceita. Assumimos o atrito de uma transição que exige tempo — o período de adaptação ao desodorante natural é real e tem explicação fisiológica. Não vendemos facilidade. Vendemos uma escolha com fundamento.

Porque, no fim, cuidar do corpo também é cuidar do mundo em que vivemos.

— Tânia Tonezzer

Fisioterapeuta na área oncológica · Mestre pela USP · Fundadora do Único Desodorante e Único Green

  • 1. Darbre PD. Aluminium, antiperspirants and breast cancer. J Inorg Biochem. 2005;99(9):1912-9. PMID: 16045991.1. Darbre PD. Aluminium, antiperspirants and breast cancer. J Inorg Biochem. 2005;99(9):1912-9. PMID: 16045991. *
  • 2. Mandriota SJ et al. Genomic instability is an early event in aluminium-induced tumorigenesis. Int J Mol Sci. 2020;21(23):9332. PMID: 33297592.
  • 3. Moussaron A et al. Correlation between daily life aluminium exposure and breast cancer risk: systematic review. J Trace Elem Med Biol. 2023;79:127247. PMID: 37354712.
  • 4. Trinh TTK et al. Use of antiperspirant products and risk of breast cancer: meta-analysis. Cancer Invest. 2024;42(9):782-792.
  • 5. Darbre PD. Endocrine disrupting chemicals and breast cancer cells. Adv Pharmacol. 2021;92:485-520. PMID: 34452695.
  • 6. Darbre PD et al. Concentrations of parabens in human breast tumours. J Appl Toxicol. 2004;24(1):5-13. PMID: 14745841. *
  • 7. Behroozian T et al. MASCC clinical practice guidelines for prevention and management of acute radiation dermatitis. Lancet Oncol. 2023;24(4).
  • 8. SCCS/1613/19. Opinion on aluminium in cosmetic products. 2020. https://ec.europa.eu/health/scientific_committees
  • 9. ANVISA. RDC n° 7/2015. https://www.gov.br/anvisa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *