A Voz da Tânia

Cuidar do corpo não é vaidade. É consciência.

Existe um preconceito que não costuma dizer o próprio nome. Ele aparece como “você é muito perfeccionista com isso”, ou “exagero em se preocupar com uma coisa tão pequena”. Mas o que está por trás, na maioria das vezes, é a ideia de que cuidar do próprio corpo com critério é coisa de quem tem tempo demais, de quem é vaidoso, de quem está exagerando.

Discordo. E discordo com experiência — como profissional de saúde, como paciente oncológica, como alguém que passou por situações em que o que colocava na pele deixou de ser detalhe e virou questão clínica real.

O que acontece com a pele durante o tratamento

A barreira cutânea é o maior órgão do corpo humano — 1,7 m² de superfície, com funções que vão muito além do que se vê. Ela regula temperatura, previne perda hídrica, é barreira contra patógenos, tem papel neuroendócrino documentado. Durante tratamentos oncológicos — quimioterapia, radioterapia, terapia hormonal — essa barreira é diretamente afetada.

Na quimioterapia, a renovação celular é comprometida sistemicamente — o que inclui o epitélio da pele. O resultado pode ser ressecamento, descamação, maior sensibilidade e maior absorção de substâncias tópicas — o que significa que ingredientes irritantes têm mais impacto do que teriam em pele íntegra. Na radioterapia axilar, a pele da região tratada desenvolve reação actínica que pode ir de eritema leve a descamação úmida — e qualquer produto tópico precisa ser avaliado pela equipe médica antes de ser usado. A orientação geral é de que não se deve usar desodorantes durante o período da radioterapia. E uma orientação super importante: nunca aplicar desodorantes, perfumes ou cremes na área que será irradiada antes da sessão1

Isso não é paranoia. É a aplicação do mesmo rigor que qualquer profissional de saúde aplicaria na escolha de um curativo, de um hidratante, de qualquer coisa que vai entrar em contato com pele em processo de recuperação.

O que a pesquisa diz sobre autocuidado em oncologia

A literatura em psico-oncologia é consistente em um ponto: manter práticas de autocuidado durante o tratamento está associado a melhor qualidade de vida e menor sofrimento psicológico. Não é sobre parecer bem. É sobre sentir que ainda tem um corpo — e que esse corpo merece cuidado.2

Um estudo de 2025 documentou que a imagem corporal medeia a relação entre depressão e qualidade de vida em mulheres com câncer de mama.3 Isso não é trivial. Quando o tratamento retira tanto da autonomia de uma pessoa — a forma como ela se sente, a energia que tem, a forma como o corpo parece estar traindo — manter práticas simples de cuidado é uma das formas de reconexão com o próprio corpo que ainda estão disponíveis.

O desodorante que você escolhe é pequeno nesse contexto. Mas o gesto de escolher com cuidado — de ler o que está na fórmula, de optar por algo que respeita a pele em vez de agredi-la — não é.

Escolha como prática, não como ansiedade

Há uma diferença importante entre escolher com consciência e se perder em ansiedade sobre cada ingrediente. O primeiro liberta. O segundo prende. A ideia não é criar uma lista interminável de coisas para evitar e transformar o banheiro num campo minado. É desenvolver um olhar mais atento — que pergunta, que lê rótulos, que prefere o mais simples quando existe alternativa.

Consumir menos e melhor é mais sustentável do que consumir muito de coisas que se dizem limpas. Um banheiro com 8 produtos que você conhece de verdade é mais coerente do que um com 30 rótulos verdes que você nunca leu até o fim.

Uma nota pessoal

Durante meu terceiro diagnóstico, em 2007, houve semanas em que a única coisa sobre a qual eu tinha controle eram pequenas coisas, pequenas escolhas: como não ficar o dia todo deitada no sofá pela fadiga intensa que me acometia. Sempre escolhia uma alimentação a mais natural e saudável para mim, comida de verdade”, sem ultraprocessados… Escolhia com cuidado  o desodorante, creme que usava antes de dormir. Isso não me curou. Mas me lembrou, todos os dias, que eu ainda tinha um corpo — e que eu podia cuidar dele. Que a escolha ainda era minha. 

Não é vaidade. É consciência. É presença.

— Tânia Tonezzer

Fisioterapeuta na área oncológica · Mestre pela USP · Fundadora do Único Desodorante e Único Green

  • 1. Behroozian T et al. MASCC clinical practice guidelines for prevention and management of acute radiation dermatitis. Lancet Oncol. 2023;24(4). DOI: 10.1016/S1470-2045(23)00067-0.
  • 2. INCA. Cuidados paliativos — qualidade de vida em oncologia. https://www.inca.gov.br
  • 3. Rotella L et al. Body image: a bridge between depression and quality of life in women with cancer. Psychooncology. 2025. DOI: 10.1002/pon.70328.

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